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I Espelho d'Água I

Exposição Individual Galeria Mamute Porto Alegre, RS.  2015

Curadoria Bruna Fetter

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Espelho d’água

Bruna Fetter

A partir de uma série de obras inéditas, Sandra nos conduz por seu processo artístico: ela se desloca e, ao fazê-lo, estabelece um íntimo diálogo com a paisagem. Lançando o olhar para o exuberante cenário natural da Ilha de Combú, cerca de dois quilômetros distante de Belém do Pará, a artista toma o rio Guamá por estrada e nos convida a observar as quebras da paisagem contidas nos reflexos do rio. Mais do que reflexos, refrações de furos e igarapés possibilitadas pela incidência da luz em suas águas voluptuosas. Fotografias-espelho que extrapolam sua planaridade e são convertidas em objetos dotados de tridimensionalidade. Os ângulos que as imagens adquirem nessa delicada montagem jogam com a perspectiva e com nossa percepção. Pequenas rupturas e reincidências nos conduzem à fronteira do real-virtual e reforçam a imagem impressa como superfície refletora.

 

Conectando Norte e Sul, em caminhadas pela Colônia (Z3) de pescadores da Praia do Laranjal, a artista registra as casas da comunidade às margens de outras águas: aquelas pertencentes às imensidões da Lagoa dos Patos. As casas e armazéns são fotografados por seções. Espaços construídos se desdobram, aparentando multiplicar-se no detalhe quando somente a adição é possível.  De forma diversa, durante trajeto de trem entre Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, a artista fotografa a paisagem da janela conectando segmentos dispersos de horizontes. A justaposição desses fragmentos cria novas paisagens, possíveis apenas do outro lado do espelho. Reflexos especulares.

 

Permeando os encontros com lugares tão variados, Sandra desenterra raízes e as faz objeto. Logo após uma árvore deixar de ser semente ela já é raiz. É a partir da raiz, com suas derivações, que qualquer planta se fixa ao solo mais difícil. É por ali que ela se alimenta recebendo água e os minerais necessários ao seu desenvolvimento. Na mostra, Sandra desdobra isso em imagens; seja através das aéreas raízes dos manguezais belenenses que, por descontinuidade e repetição, revelam, por aproximações de fragmentos, a delicada resistência de existir; ou seccionando e invertendo arbustos secos cujas raízes, apontando para cima, embaralham a noção de origem e de fim e sugerem que espelhamentos podem ser complexos sistemas da natureza.

Na exposição, as obras agenciam estranhamentos entre imagem e referente, possibilitando reordenações visuais que desestabilizam, em diferentes gradações,  a noção de real. A água, aqui, conecta as obras não por sua capacidade refletora, mas sim por sua condição reflexiva.

 

[1]FOUCAULT, Michel. Dits et écrits 1984, Des espaces autres (conferência no Cercle d'études architecturales, 14 de março 1967), in Architecture, Mouvement, Continuité, n°5, outubro 1984, pp. 46-49.